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Destaque do mês

Coberto por um manto

Não esconda o feminino sagrado que há em você.
Por Ana Cristina
Vargas
www.vidaeconsciencia.com.br


As imagens do feminino sagrado nos remetem à simbologia do manto. Nem sempre foi assim. Na antiguidade, as deusas não eram cobertas, ao contrário, o corpo feminino era exibido e cultuado como representação do divino. Porém, com o advento da cultura greco-judaico-romana, o divino feminino foi perdendo espaço. Prevaleceu a visão da Gênese bíblica, ou seja, o feminino é carne de segunda em todos os sentidos. Parece algo tão distante falar desse texto mítico, mas ele influenciou e influencia tanto, que, infelizmente ainda é atual. Conforme a visão bíblica, as mulheres são descendentes de Eva, que foi extraída da costela de Adão. Costela é carne de segunda, bem que podia ter sido filé; esta origem foi a base para que filósofos da idade média, em especial Aristóteles, defendessem a idéia de que a mulher é um homem inferior, incompleto, e que não tem o mesmo direito natural que o homem. Este, sim, foi criado diretamente e por vontade divina. Estas raízes embasaram séculos de sofrimento, soterraram outras culturas e civilizações que reconheciam no poder divino o masculino e o feminino. Obviamente, a origem é eivada de vícios que foram e são muito pouco discutidos. Por exemplo, Eva não é a primeira mulher de Adão. Existiu uma antes, Lilith. Muitos capítulos depois da narração da criação da vida, encontra-se a informação de que Adão, sentindo-se abandonado, pede uma companheira que lhe seja servidora e submissa. Temos então a cena da primeira operação feita por hipnose e da clonagem humana: surge Eva. Lilith rebelou-se com a dominação machista e pediu o divórcio. Vejam que história atual! Fofoca com fonte segura; leia, se quiser, os livros do Velho Testamento e confirme.
E a partir disso, desaparece a voz feminina onde quer que este texto exerça influência cultural e religiosa. Mas os romanos, os gregos, os egípcios e todos os povos antigos cultuavam as deusas; tempos depois, quando o Cristianismo torna-se religião oficial do império romano, e ainda um pouco além, quando já transformado em Catolicismo, e quando decidiu-se cristianizar esses povos, foi preciso ceder ao reconhecimento de algo sagrado no feminino. E surge o culto à Mãe Maria. Somente o materno passa a ser divino, as demais características femininas continuam endemoniadas; a mãe é sagrada e lança-se sobre ela um manto, algo que esconde tudo.
Mas o feminino é muito mais do que a maternidade. Aliás, entendo a maternidade como um sentimento tipicamente feminino, o que não implica ser sentido apenas por mulheres. É o sentimento protetor por excelência, é a capacidade de doar-se física e emocionalmente pelo bem-estar de alguém a quem se ama e em quem se reconhece uma condição de fragilidade. Por dar esse amor a um ser mais frágil, nada se pode esperar em troca.
Ser mãe não é simplesmente gerar um corpo por nove meses; é ser capaz de amar, proteger, dar suporte material, psíquico, emocional e espiritual a um ser frágil durante muitos anos, até que ele recobre suas potencialidades. Todos reencarnamos necessitando do sentimento materno, e precisamos que alguém nos dê esse amor feminino. Quem já viveu a experiência sabe que, muitas vezes, no final da existência os papéis terrenos se invertem: filhas e filhos tornam-se mães de seus genitores.
Ao retirarmos da nossa cultura o lado feminino do divino, aprendemos a cultuar um Deus guerreiro que precisa ser temido. Isso nos afasta Dele, pois, como humanidade, ainda somos espíritos necessitados de amor, compreensão e crescimento, não de punição, culpa e medo.
É interessante como o manto simboliza algo encoberto e, ao mesmo tempo, a necessidade que temos de um amor feminino que nos proteja, acolha, não cobre, não culpe, entenda nossas fragilidades e saiba que tem em si o poder de transformar nossos corações.
Em O Livro dos Espíritos, de Allan Kardec, encontramos a informação de que os espíritos não têm sexo - não como nós entendemos - e que reencarnamos tanto em um gênero quanto em outro, pois ambos são escolas necessárias à nossa evolução. E mais: segundo a lei de igualdade, não há justificativa para discriminação e preconceito. Essas informações nos permitem deduzir que o ser espiritual possui todas as possibilidades de manifestação da sexualidade que vemos na Terra. Feminino e masculino são extremidades, e caminhamos entre elas sempre à procura de crescimento, aprendendo e desenvolvendo as capacidades que encerram para a nossa evolução.
Não esconda o feminino sagrado que há em você. Encontre essa fonte de amor incondicional e protetor e aprenda a usá-la. Reverencie a vida maior e não aceite encobri-la com um manto, ainda que seja feito de estrelas. Nada é mais belo do que essa capacidade da alma humana.

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